Filmes Premiados

Filmes premiados – Cinecipó 2016

Filme de mulher

Melhor filme: A boneca e o silêncio – Carol Rodrigues, SP

Filme insurgente

Melhor filme: Na missão com Kadu – Aiano Benfica, Kadu Freitas e Pedro Moura – MG

Menção honrosa: Silêncio não se escuta – Rochane Torres, GO

Documentário

Melhor filme: Tarja Preta – Marcio Faria, PE

Menção honrosa: Putta – Lilian de Alcântara, PR

Ficção

Melhor filme: #Ocupação – Gustavo Serrate e Rodrigo Huagha, DF

Menção honrosa: O dia da virgem – Louise Heem – França

Experimental

Melhor filme: Autopsia – Mariana Barreiros – RJ

Menção honrosa: A cama, o carma e o querer – Daniel Fagundes – SP

Animação

Melhor filme: Konãgxeka – o diluvio Maxacali – Charles Bicalho e Isael Maxacali – MG

Menção honrosa: Oxum – Denis Leroy – MG

Filme estrangeiro

Melhor filme: Deda – Rati Isitepadze – Georgia

Menção honrosa: A porta da prisão – Kevin McCann – Irlanda

Notas do júri: quando os filmes nos convidam a tomar posição

 

Por Fabiana Leite e Paula Kimo

Impressiona constatar a qualidade e a liberdade dos filmes exibidos no Festival Cinecipó e seu alcance em termos geográficos e políticos. Um festival que atrai e traduz um tipo de cinema insurgente, necessário aos desafios do nosso tempo, que intervém no presente ao passo que funda memórias. Nessa edição, destacamos a criação do prêmio Filme insurgente que premiou o curta-metragem Na missão, com Kadu – filme que nos atropela pelo tremor de suas imagens, pela forma como a violência do Estado é posta em cena e pela energia de luta que se torna visível, a luta dos moradores das ocupações de Izidora por moradia digna.

No conjunto dos filmes, o Cinecipó denuncia os desafios e dilemas socioambientais da atualidade, gesto que se evidencia no convite à exibição de recortes do documentário Narrativas do Vale, filme financiado coletivamente que percorre os rastros de destruição do maior crime ambiental que o Brasil já sofreu, fruto da exploração criminosa das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton na região de Mariana em Minas Gerais. Nessa direção também Tarja Preta (filme pernambucano premiado como melhor documentário) evidencia os impactos e adoecimentos sociais produzidos numa cidade inteira, por conta de uma remoção arbitrária para a construção de uma hidrelétrica.

O convite para duas mulheres comporem o júri demonstra ainda um outro tipo de postura do festival, para nós impressa na tela. De um total de 77 filmes exibidos, 13 foram premiados, sendo 6 deles assinados por mulheres. E para marcar a importância deste olhar criamos a categoria Filme de mulher, premiando a ficção A boneca e o silêncio (filme sensível – que expõe as violências sofridas por uma menina de 14 anos ao decidir interromper uma gravidez indesejada – e surpreende pela qualidade técnica e interpretação da jovem Morgana Naughty). A questão racial se afirma nesta obra e está presente também em A cama, o carma e o querer (menção honrosa na categoria experimental, bonito pela ousadia com que experimenta, de forma poética, o prazer pela perspectiva de mulheres negras). Sobre as questões de gênero destacamos ainda Autopsia (melhor filme experimental, colagem que incomoda, sobre a cultura de estupro e objetificação da mulher pela mídia no Brasil), Putta (menção honrosa na categoria documentário, acompanha o relato biográfico de prostitutas da fronteira entre Brasil, Paraguay e Argentina) e Deda (melhor filme estrangeiro, realizado na Georgia, nos impõe a angustia e opressão sofrida por uma mãe solteira que tenta a todo custo manter em segredo a existência da sua cria).

Nas animações tivemos presença marcante das questões ambientais, como em Konãgxeka: o dilúvio maxakali, filme indígena dirigido por Isael Maxakali e Charles Bicalho, premiado melhor filme de animação (que apresenta a versão maxakali da história do dilúvio, sendo também uma denúncia à relação criminosa do homem frente à natureza e as consequências ambientais da sua postura) e Oxum (menção honrosa de animação, apresenta a saga dos orixás para salvar a humanidade da seca e da fome na Terra).

Dilemas políticos e lutas atuais tem voz em muitos filmes, como em Silêncio não se escuta (menção honrosa na categoria filme insurgente), retrata um golpe orquestrado via impeachment no Brasil; #Ocupação (melhor filme de ficção), nos lança dentro em um pequeno cômodo de um prédio ocupado e em luta pela moradia no centro da capital federal; O dia da virgem (França, menção honrosa de ficção) apresenta o absurdo das guerras étnicas que de um dia para o outro se impõe e violentamente arrancam nossas vidas e afetos; A porta da prisão (Irlanda, menção honrosa na categoria filme estrangeiro) nos toca pela fotografia sensível e narrativa silenciosa, capaz de desvelar as angústias de um prisioneiro solitário. Nesta perspectiva socioambiental importa destacar ainda os longa-metragem Terra Cabocla, Largou as botas e mergulhou no céu, Rikbaktsa, A escola toma partido e Xingu Cariri Caruaru Carioca, por traduzirem uma qualidade estética, narrativa e política de um cinema engajado que fizeram por merecer da curadoria a condição de filmes convidados.

Depois de 5 dias de imersão nas sessões do Cinecipó, que contou com a histórica presença das crianças das ocupações de Izidora numa tarde de domingo, olhamos para o festival como um espaço engajado, que posiciona a luta antes da imagem. Nesse sentido, o Cinecipó propõe uma curadoria que reconhece, valoriza e exibe a produção de cinema militante sem exigir muito dos filmes. Aquilo que se filma declara urgência por visibilidade e o festival atende ao chamado. Já bastam os desafios e entraves postos pelas culturas dominantes e pelo Estado-capital aos espaços de resistência. O cinema pode e deve agir de forma diferente. Para nós, juradas do Cinecipó, é preciso reposicionar o olhar diante de filmes que são, no presente, ferramentas de luta e intervenção. Nesse sentido, ao criar as categorias Filme Insurgente e Filme de Mulher, além de premiar 13 produções, o júri também assume um compromisso e atende ao chamado dos filmes e das resistências que trafegam das realidades às telas na disputa por visibilidade.