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Walter Navarro: discriminação, calúnia e falsificação da História

Como Walter Navarro consegue em poucas linhas de uma crônica tacanha, incorrer em tantos crimes. Crônica que lhe custou o emprego no jornal e pode gerar um processo no MPF.

Há tempos a velha mídia recorre à ideia de liberdade de expressão quando questionada acerca de matérias que publicadas e que nas quais podem ser percebidas a parcialidade, o preconceito, o atendimento a grupos de interesse e outras tretas.

O conceito de liberdade de expressão é caro a nós brasileiros que vivemos uma parte de nossa História em um regime ditatorial e deve prevalecer sempre.

Aliás, um exemplo de liberdade de expressão recente é o texto de Walter Navarro: “Guarani Kaiowá é o c… meu nome agora é Enéas p…”, publicada no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, MG, no dia 08/11/2012. Não houve censura prévia do SNI (ops, isso não existe mais). O autor se expressou livremente. Seu texto foi lido, pessoas discordaram ou concordaram com sua exposição. Democracia.

Alguns defensores de Walter Navarro criticam o afronte à liberdade de expressão, traduzido pelas criticas que o autor recebeu e a sua demissão pelo jornal. Se alguém cerceou a liberdade de Walter foi seu patrão, de quem já tive o desprazer de ler alguns editoriais nauseantes, Vitorio Mediolli, que retirou do site do jornal o texto. Restam as versões impressas que ainda não viraram forro de chão do lugar que o cachorro faz xixi e republicações online[1]. Nada de grave para um dono de jornal essa tentativa de apagar a História e também amenizar a lama para seu jornal, que também é lido por pessoas que utilizam o cérebro.

Apagar a História daqui, adulterá-la de lá… Walter Navarro, dentre outras imperícias de sua subliteratura, falsifica declarações de grandes indigenistas brasileiros. Na boca de Marechal Rondon coloca a frase “Índio bom é índio morto”. Porém, Rondon nunca disse tamanha asneira e um registro de uma frase semelhante a de Walter Navarro é de James M. Cavanaugh, dita no Congresso estadunidense em 1869, “I have never seen in my life a good Indian … except when I have seen a dead Indian[2].

Me lembro da primeira vez que ouvi a frase dos irmãos Villas Boas sobre a estratégia desenvolvida por eles de contato pacífico com os índios isolados: “Morrer se for preciso, matar nunca”. Fiquei emocionado, tanto quanto ao assistir “O último Kuarup branco”, documentário que transparecesse do primeiro ao último minuto o respeito mútuo que pode e deve existir entre as pessoas, especificamente o carinho dos índios do Parque do Xingu com Villas Boas. Como um dono de posto de gasolina que a vende o produto adulterado, Walter Navarro, utiliza ardilosamente as palavras na construção de seu discurso racista e falsifica a frase dos irmãos Villas Boas em “Matar, se preciso for, morrer, nunca!”. Na minha opinião um crime grotesco contra a memória nacional, os cidadãos brasileiros e os familiares desses personagens. Sujeitos como Walter Navarro crescem um dia e se tornam Diogos Mainardis ou Leandros Narlochs… Um perigo o que essas mentes acabrunhadas podem causar a leitores incautos que assinam revista Veja e acham que estão se mantendo informados.

A discriminação, o preconceito contra os índios e falsificar frases de indigenistas são as partes mais graves e criminosas do texto. Praticar um crime desse tipo, num país que vem tentando corrigir seus 512 anos de injustiças com pretos, índios, brancos pobres e outras minorias, como o senhor Walter, é burrice. Se no aglomerado de palavras odiosas o autor se resumisse a criticar o ciberativismo, seria um direito dele não gostar de uma das possibilidades que as pessoas podem utilizar hoje para se solidarizar com causas importantes.  Colocar Guarani-Kaiowá no sobrenome é apenas uma das possibilidades. Apesar de ser um direito de Navarro, esta é uma crítica anacrônica, pois a tomada de posições e ações na internet surte efeito em várias esferas. E menosprezar seu poder é perigoso. Nesse caso o autor de tão criminosa crônica já sofre conseqüências, pois seu nome, quando buscado no Google, faz aparecer vários textos que desconstroem sua crônica discriminante. E isso fica pra sempre na internet. E quando for buscar novo emprego, vão pesquisar sobre o que ele andou escrevendo. E imagina também se as pessoas se revoltam com tamanhas imbecilidades criminosas e resolvem enviar um email para o Ministério Público Federal pelo [email protected]? Não deixa de ser uma forma de ativismo através do meio cibernético. O MPF possui a 6ª Câmara[3], que é voltada para as Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais e inclusive processou jornalistas que, como Walter Navarro, incorreram em crimes de discriminação contra os índios.

Enfim, esperamos caminhar na direção de um mundo igualitário, no qual a cor da pele não faça diferença.

Cardes Monção Amâncio


[1] Leia o texto na íntegra em: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue//2012/11/514081.shtml

[2] “Eu nunca vi na minha vida um bom índio, exceto quando eu vi um índio morto”. Tradução nossa.

[3] http://6ccr.pgr.mpf.gov.br/institucional/apresentacao/apresentacao_txt

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