Premiados e Balanço/Manifesto 5ª edição

V Cinecipó – Festival de Cinema Socioambiental | Outubro / 2015

Filmes mais votados pelo público de cada sessão da mostra de curtas:

Serra do Cipó – Foram 1080 minutos de projeção, mais de 70  curtas e 4 longas, com filmes de todas as regiões do Brasil e do exterior

– Sementes – Dir. Marcelo Engster, Documentário, 12’, RS, 2015

– O corpo e meu – Dir. Luciana Oliveira, Documentário, 24’, SE, 2014

– Sempre Viva – Dir. Tiago Carvalho, Documentário, 23’58’’, RJ, 2014

– Pássaro do Amor ( Morgh-e-Eshgh) – Dir. Kouros Samanian, Ficção, 4′, Irã, 2015

Belo Horizonte – Foram 989 minutos de projeção, 42 curtas e 4 longas, com filmes de todas as regiões do Brasil e 15 estrangeiros.

– “O Sepulcro do Gato Preto – Dir. Kaneda Asfixia e Frederico Moreira, Documentário, 25′, SP, 2015”

– Sem Coração – Dir. Nara Normande e Tião, Ficção, 25′, PE, 2014

– Gaivotas ou o que Fazer com os Braços – Dir. Ramon Coutinho, Documentário, 23′, BA, 2015

– Crônicas de uma Cidade Inventada- Dir. Luísa Caetano, Documentário, 25′, DF, 2014

– Exília – Dir. Renata Claus, Documentário, 24′, PE, 2015

– Dia da Mentira – Dir. Thiago B. Mendonça e Marco Escrivão, Documentário, 25′, SP, 2014

– O Semeador de planetas – Dir. Marcelo Tanure, 12′, Animação, MG, 2014

– O Corpo é meu – Dir. Luciana Oliveira, Documentário, 24′, SE, 2014

– Em terras estrangeiras – Dir. Absair Weston, Ficção, 18′, GO, 2015

Balanço Manifesto

O trabalho de curadoria dos filmes, realizado por mim e por Paulo Heméritas, foi uma longa imersão por 266 obras inscritas (curtas, médias e longas), que somaram 55 horas, de praticamente todos os estados do Brasil e diversos países.

Confesso que fiquei emocionalmente abalado por uns dias após a semana de curadoria.  Assistí filmes o dia inteiro. E um dia, cansado, descansei vendo mais filmes. Meu sentimento veio principalmente porque a maioria dos filmes é um grito, uma denúncia, uma insurgência contra coisas que aparentam ser maiores que nós: a dominação e a opressão do capital-Estado e o que o sistema é capaz de empreender para seguir com seu objetivo principal – o lucro. Mas na mesma mão, misturado às ânsias de mudança, vem a calma e a força para seguir na longa caminhada por uma trilha que se inventa todo dia e que por onde não se caminha só!

De forma que esse “Apelo”* contra o terrorismo de Estado nos chega em busca da tela grande, da maior dimensão possível, para dar conta de uma revolta que não pode e não vai ficar guardada no peito e explode em sons e imagens, contrai e dilata pupilas. Um salve pras Mães de Maio, que são co-autoras de “Apelo”. No “Sepulcro do gato negro” está enterrado Billy, perto do cemitério de Perus, onde vários mortos pela ditadura civil-militar foram enterrados em valas clandestinas. O cinema na e da perifa é poder, que mais mãos das quebradas empunhem câmeras! A televisão não dá conta do Brasil.

A luta pela terra, na cidade e no campo, se mostrou presente no Cinecipó com “Marrocos”, “Um rio em disputa”, “Exília”, “Félix, o herói da Barra” e “Revolução industrial”. Luta de quilombolas, indígenas, agricultores e moradores de cidades. Ocupar é uma palavra bonita e intensa e nos dias de hoje tem a potência da ação direta dos que fazem política cotidianamente e tem postura altiva em relação a um direito constitucional: moradia digna. Um salve para todos que estão no front, sendo acusados de invasores pela velha mídia. Vida longa aos mundurukus, com sua altamente contagiante autodemarcação de seu território, que equiparo à coragem dos moradores e moradoras da Izidora, maior ocupação urbana do Brasil e de todas outras ocupas rurais e urbanas. Viva o MST, a reforma agrária e urbana! Não ao PEC 215! Estamos juntos!

Uma das sessões mais legais foi a especial, que fizemos atendendo a pedidos dos agricultores orgânicos e produtores rurais que estão juntos no Mercadinho Caindo Fulô do Cipó. É por essas e outras que faço esse festival. Pra olhar nos olhos das pessoas e ver a resistência, a luta e a vontade de viver que está dentro delas, bate na tela e reflete nos olhos. O que fazer quando bate a vontade chorar? Choro, pois a emoção e a alegria são desdobramentos dessa revolução cotidiana.

O cinema é combustível! É megafone! É ponte entre almas!

Água. Água e autodeterminação dos povos. Contra a mercantilização deste bem comum. Ainda em momentos pré-crime ambiental da Samarco / Vale / BHP Billiton tivemos importantes filmes como “A lei da água” e “Entrecorpos”. E como todos as lutas são híbridas, a luta pela terra dos indígenas e dos quilombolas também é uma luta pela preservação da natureza. Quando atravessei os rios Paranã e Tocantins a remo, saindo das terras do quilombo Kalunga, percebi que tão logo deixei o quilombo, a vegetação nativa de cerrado raleou e foi substituída pelo agronegócio das “capitanias hereditárias”, que foram 15 um dia e hoje são um pouco mais que isso… Casa-grande: seu alicerce está podre e vai ruir. As narrativas agora são múltiplas, Bento Rodrigues não será esquecido. O rio Doce, todos seus seres, humanos e não-humanos, não serão esquecidos. Caminhemos rumo a novos paradigmas econômicos, que possibilitem a riqueza do nosso povo e não de uma pequena elite, e não detone com toda a natureza.

O poder das mulheres presente em diversos filmes, tanto na temática como na direção. Cerca de 35% dos filmes exibidos foram dirigidos ou co-dirigidos por mulheres! Que um dia em breve seja meio a meio. Seguimos desconstruindo o machismo e ampliando a igualdade. Dia 31/10 exibimos “O corpo é meu”, nesse mesmo dia teve o primeiro ato contra a PL 5.069 do Eduardo Cunha em Belo Horizonte, com repressão da polícia militar, que é submetida ao comando do governador Fernando Pimentel (PT). Essa foi, no mínimo, a terceira ação de violência do Estado contra cidadãs e cidadãos em manifestações pacíficas. Estamos filmando tudo e o terrorismo estatal, serviçal do capital, não será esquecido. Cunha: o corpo é delas! Respeita as mina, porra! Pimentel: solta da mão dos empresários!

E como vários adultos já estão muito tortos, não perdemos a esperança no poder do cinema de compartilhar realidades e formas de se estar no mundo, mas sabemos que muita gente não vai mudar mesmo. Esse ano investimos forte nas crianças e teve mostrinha todo dia no Cipó. Em BH uma sessão especial dedicada a elas.

E para completar a insana maratona que é realizar dois Cinecipós, um com patrocínio de 10% do valor e outro sem orçamento, ainda inventei de fazer um seminário: As híbridas das lutas sociais. A ideia foi convidar pessoas de diversas frentes de lutas e a partir da percepção de que há vários pontos de interseção entre os movimentos sociais. Foi uma experiência densa e intensa, três dias de muito aprendizado e fortalecimento das nossas teorias, que como disseram Foucault e Deleuze, são nossas caixas de ferramentas. E temos feito bons usos delas. Valeu demais Débora Maria da Silva / Mães de Maio, sua força é exemplo pra todxs lutadorxs! Valeu Brigadas Populares e Bella! Yan Filipe, Dão e Ana da ocupação Vitória, bairro em consolidação! Kaká! Natacha Rena, Priscila Musa, Barnabé, Frei Gilvander, Paula Kimo, Léo Péricles, Miriam Alves, Pablo Camargo: compas de lutas aqui em BH! E os irmãos quilombolas guerreiros do Marques: Édson e Delei! A babilônia vai cair.

Cinecipó é artesanal e anti-espetáculo. Cinco anos de muita luz na sala escura e na praça sob as estrelas. Beijo pra minha querida Daniela Pimentel, parceira de vida e de festival! Um salve especial para todas e todos que participaram das sessões, enviaram filmes, realizaram as oficinas, colaboraram na organização! Obrigado CEFET-MG, professores, alunos e administrativo, Grupo de Pesquisa Tecnopoéticas – Posling CEFET-MG, Grupo de Pesquisa Indisciplinar EAU/UFMG, Prefeitura Municipal de Santana do Riacho, Comtur, Associação Comunitária João Duarte Nogueira e Sesc Palladium.

Cardes

Coordenador Cinecipó

Anúncios