





Entrevista com Fantasmas / Windows 51 / Cinema Moderno
O cinema diante do espelho
Por Arthur Quadra
O cinema independente brasileiro contemporâneo sobrevive em um estado de perpétua fricção entre o desejo de fabulação e as amarras materiais de sua própria existência. Longe dos grandes orçamentos e dos circuitos comerciais hegemônicos, uma nova safra de realizadores têm transformado o próprio fazer cinematográfico em objeto de investigação estética e política. Esta sessão em especial reúne três obras fundamentais desse panorama recente: Cinema Moderno, de Felipe André Silva; Entrevista com Fantasmas, de Lincoln Péricles e Windows 51, de Sandro Garcia. Embora partam de territórios geográficos, afetivos e estéticos distintos, transitando entre o ambiente urbano recifense, a periferia paulista e a Baixada Fluminense, os três curtas-metragens convergem em uma provocação contundente: afinal, como, para quem e a que custo se produz cinema independente no Brasil hoje?
Abrindo a sessão, com uma dose cortante de metalinguagem, Cinema Moderno, de Felipe André Silva, eleva a autocrítica do meio cinematográfico ao seu ponto mais agudo. Como um desdobramento de seu trabalho anterior (Cinema Contemporâneo, 2019), o realizador recifense parte de uma premissa desconcertante: "Vendi os direitos da minha vida para o cinema brasileiro. Acho que me arrependi." Ao utilizar o ator Guga Patriota como seu alter ego em cena, Silva constrói um dispositivo de distanciamento para denunciar o mecanismo perverso dos editais de cultura, dos fundos de financiamento e das curadorias de festivais. A provocação aqui é frontal ao questionar como o sistema institucional do cinema independente brasileiro muitas vezes exige a espetacularização e a comercialização dos traumas, das dores e das identidades de realizadores LGBTQIA+ e de minorias sociais como moeda de troca para o acesso ao financiamento. O filme questiona a ética da representação e a transformação da subjetividade em mercadoria palatável para a classe média intelectualizada que consome os festivais de cinema. Juntos, os filmes compõem um tríptico indissociável sobre a crise e a potência do cinema independente nacional.
Na sequência, Entrevista com Fantasmas, de Lincoln Péricles, estabelece o tom arqueológico e espectral da mostra. Conhecido por sua sólida trajetória no "cinema de quebrada" na Zona Sul de São Paulo, LK aqui expande seu escopo territorial e conceitual ao deslocar seu olhar para imagens de arquivo do desativado Cine Teatro Carlos Gomes. O filme funciona como um manifesto de resistência poética operado sob a premissa de que "existe um cinema que não existe". Ao evocar os fantasmas que habitam as ruínas dos antigos cinemas de rua, o diretor não apenas lamenta a perda desses espaços físicos de sociabilidade e difusão cultural, mas lança uma crítica severa ao modelo de preservação e distribuição cinematográfica no Brasil. O apagamento da memória e a elitização do acesso às salas escuras surgem como sintomas de um sistema que empurra a produção independente para as margens, forçando o cineasta periférico a se fantasiar de historiador de suas próprias ausências para que sua voz possa ecoar.
Fechando a sessão, Windows 51, de Sandro Garcia, opera em uma chave de intimidade radical, onde a janela da casa do diretor se transforma na moldura de um ensaio sensorial sobre o tempo, o espaço e o afeto. Ao mesmo tempo que celebra a autonomia do olhar, o curta expõe a precariedade estrutural, já que, ao registrar a figura de seu padrinho José Inácio da Silva Filho, o diretor subverte as convenções do registro tradicional a partir da própria economia de produção.
Para além das fricções econômicas e institucionais, a coesão profunda desta sessão se materializa na partilha de um mesmo signo que atravessa as três obras de forma explícita ou subjetiva: a figura do fantasma. Longe de se reduzir a um mero tropo do cinema de gênero, o espectro aqui funciona como uma chave de leitura para as representações que estes realizadores constroem de si mesmos e de suas realidades, manifestando-se como uma imagem projetada diante do espelho. Nos três filmes, o fantasma é aquilo que insiste em não desaparecer, a assombração de um passado ou de uma condição presente que o próprio dispositivo cinematográfico tenta capturar e, ao mesmo tempo, exorcizar.
Em Entrevista com Fantasmas, essa presença é literal e coletiva. O fantasma do cinema de rua evocado por Lincoln Péricles assombra as ruínas físicas do Cine Teatro Carlos Gomes, mas também assombra o próprio realizador. Já em Windows 51, o assombramento ganha contornos domésticos e afetivos na figura do padrinho de Sandro Garcia. Através da janela, a moldura de vidro funciona também como um espelho reflexivo no qual ele olha para a própria árvore genealógica, para as dores que cercam sua própria criação. Por fim, Cinema Moderno esvazia a opacidade do espelho para encenar o próprio fantasma do cinema moderno, ou seja, o espectro de uma promessa de emancipação pela arte que ruiu. Ao cindir sua própria identidade e delegá-la a um alter ego, o realizador recifense transforma a si mesmo em um fantasma de sua própria narrativa. Ele se torna uma assombração espectadora de sua própria vida, um ser que vendeu sua intimidade para as telas e agora vaga pelas margens de seu próprio filme.




