O Festival

 

Querido público do Cinecipó,
Este ano estamos de licença maternidade e paternidade.

Assim, alegre e extraordinariamente não haverá edição.

Em 2019 retomamos nosso festivalzinho do !

 

 

 

CÂMERA CIDADÃ: MOSTRA RENÉ VAUTIER

Pela primeira vez no Brasil será realizada uma mostra parcial de filmes do cineasta francês René Vautier com sessões comentadas.

No Sesc Palladium, Belo Horizonte, de 20 a 23 de março de 2018.

Neste link você acessa as conferências sobre os filmes.

Filmes da Mostra:

20/3/18 – Terça-feira – 19hs

Povo em marcha (Peuple en marche) – René Vautier, Ahmed Rachedi, Nacer Guenifi, Héléna Sanchez, Sidi Boumédienne, Mohamed Guennez, Allal Yahiaoui, Mohamed Bouamari, André Dumaître, Taïbi Mustapha Bellil, 1964, 50’
Em 1962, René Vautier criou com amigos argelinos um centro de formação audiovisual para promover um “diálogo em imagens” entre os dois campos. A partir desta experiência é feito um filme, parcialmente destruído pela polícia francesa. As imagens que puderam ser salvas constituem um raro documento histórico: elas relatam a guerra argelina, recontam a história do ALN (Exército de Libertação Nacional) e mostram a vida no período pós-guerra, incluindo a reconstrução nas cidades e no campo após a independência.

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Sessão comentada por: Júnia Torres

Antropóloga e documentarista. Organizadora e curadora do forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte em 21 edições. Curadora da mostra Cinema, Território Ameríndio (2017), Política e Palavra no Documentário (2016) realizadas junto ao Sesc Palladium e do Mekukradjá: encontro de realizadores e escritores indígenas, realizado no IC-SP (2016/17). Integrante da Associação Filmes de Quintal.

 

21/3/18 – Quarta-feira – 19hs

Quando as mulheres se revoltam (Quand les femmes ont pris la colère) – René Vautier e Soazig Chappedelaine, 1977, 67’, doc.
Doze mulheres de Couëron, Loire-Atlantique, sequestravam o chefe da fábrica onde seus maridos, irmãos e pais trabalham, como protesto por melhores condições trabalhistas.

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Sessão comentada por: Julia Fagioli

Pesquisadora de Cinema. Doutora em Comunicação Social pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, com a tese “Porque as imagens se põem a tremer? Militância e montagem em O fundo do ar é vermelho, de Chris Marker”. Mestra pela mesma instituição.


22/3/18Quinta-feira – 19hs

Vinte anos nos montes Aurès (Avoir vingt ans dans les Aurès) – René Vautier, 1972, 96′, fic.
Um grupo de bretões refratários e pacifistas foi enviado para a Argélia. Confrontados com os horrores da guerra pouco a pouco estão se tornando máquinas de matar. Um deles não vai aceitar e vai desertar levando com ele um prisioneiro da FLN que estava para ser executado no dia seguinte.

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Sessão comentada por: Marcelo R. S. Ribeiro

Professor de História e Teorias do Cinema e do Audiovisual da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Arte e Cultura Visual pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina e antropólogo pela Universidade de Brasília, é também fundador, autor e editor do incinerrante (http://www.incinerrante.com/) e atua ainda como programador e curador de mostras e festivais de cinema.

 

23/3/18 – Sexta-feira – 19hs

África 50 (Afrique 50) – René Vautier, 1949, 20’, doc.
África 50, de René Vautier, é um dos raros testemunhos cinematográficos da violência do sistema colonial francês na África. Câmera na mão, René Vautier, a pedido da Liga do Ensino, parte, em 1949, para filmar as condições de vida nas aldeias das colônias da África Ocidental Francesa, com o objetivo de criar conteúdos etno-pedagógicos. Revoltado com os desastres humanos causados pela ideologia colonial e a aculturação forçada das etnias locais em resistência, Vautier rompe muito rapidamente com a delegação comandada pelos representantes do governo. Ele é expulso oficialmente da África, mas foge e filma clandestinamente os vestígios da repressão na Costa do Marfim. De volta à França, depois de múltiplas peripécias, ele monta África 50 com um quarto das películas então capturadas (o restante foi confiscado pelo governo francês). O diretor será condenado a um ano de prisão e o filme será censurado durante mais de quarenta anos, mas será apoiado de maneira semi-clandestina nas redes alternativas. Em 1997, o Ministério das Relações Estrangeiras envia uma carta a René Vautier, especificando que “ uma comissão decretou que era útil para o prestígio da França mostrar, através desse filme, que nos anos 50 existia no nosso país um sentimento anticolonialista pronunciado”.

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 O sino (Le Glas) – René Vautier, 1969, 6′, doc.
O filme, narrado por Djibril Diop Mambéty sobre uma música composta de a partir de uma gravação dos Panteras Negras, denunciou o enforcamento de três revolucionários africanos em Salisbury na África do Sul. Le Glas foi dirigido por René Vautier sob o pseudônimo Ferid Dendeni, que significa “homem de Denden”. Denden é a prisão onde o cineasta foi preso na Tunísia entre 1958-1960.

LE GLAS

Sessão comentada por:

Cida Reis
Iniciou sua atuação no campo do audiovisual tem início em 2001 como coordenadora do setor de Pesquisa no Centro de Referência Audiovisual – CRAV/PBH, onde desenvolveu pesquisas sobre a história e a memória das manifestações cultural/religiosa afro-brasileira. Na área de produção atuou em filmes como “A Cor Branca” e “Vazante”, além de séries para TV e nas mostras “Clássicos do Cinema Africano Restaurados”, Fest´Afro Brasil; “Jean Rouch – Retrospectiva Cinematográfica e Colóquios no Brasil”; e Coordenação do Coletivo FAN da Imagem, no IV Festival de Arte Negra – FAN. Dirigiu os filmes “Marias do Misericórdia”, de 2007; “Capoeira da Memória – Homenagem aos Mestres”, 2007 e a série “Um Olhar Sobre os Quilombos no Brasil”, 2006.

Marcos Antonio Cardoso
Filósofo e Mestre em História Social pela UFMG. Militante do Movimento Negro brasileiro, desde a fundação do Movimento Negro Unificado em 1978, hoje é Presidente do Instituto Hamilton Cardoso, vinculado à Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN. Publicou o livro o Movimento Negro em Belo Horizonte, é pesquisadores das culturas negras e professor de Introdução à História da da África, atuando na formação de professores, juventudes e vivenciadores das tradições religiosas de matriz africana.

 

 

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René Vautier (1928 – 2015), cineasta francês, em 1950 foi contratado pela Liga Francesa de Ensino para fazer um documentário sobre a educação francesa na África subsaariana. Porém Vautier ignorou a encomenda e realizou o documentário Africa 50, desvelando o trabalho forçado, as violações e violências das autoridades coloniais francesas contra a população da Costa do Marfim e da República do Mali. Foi o primeiro filme anticolonialista francês, que além de ter 33 dos 50 rolos apreendidos na alfândega antes da montagem, foi censurado na França por 40 anos e rendeu ao diretor um ano de prisão. René, que se auto-proclamava o “cineasta francês mais censurado”, tinha 20 anos quando realizou o curta. Nicole Brenez, especialista na avant-garde francesa da Cinemateca Francesa considera Africa 50 o maior filme da história do cinema.

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Moïra Chappedelaine-Vautier e René Vautier.

Quando torna-se mais dura a guerra da Argélia após 1953, Vautier retorna à África, pela Tunísia, e colabora com dois documentários: Une nation, l’Algérie (filme destruído/desaparecido) e L’Algérie em flammes. Essa colaboração despertou a ira do governo francês e Vautier foi obrigado ao exílio até 1966.

Em 1967 retorna à França e participa, com Chris Marker e outros do grupo Medvedkine, uma cooperativa que realizava cursos de produção cinematográfica para operários franceses realizarem seus curtas políticos.

Em 1972 Vautier recebeu o prêmio da Crítica Internacional em Cannes, com o longa de ficção Avoir vingt ans dans les Aurès (20 anos nos montes Aurès). O filme repassa a história de um soldado desertor francês que se recusou a executar sumariamente um prisioneiro argelino. Segundo Louis Marorelles, foi o “filme mais livre e menos conformista que se viu na França nos últimos tempos”.

Em 1972 Vautier realiza uma greve de fome, após ter sido negado pelo governo francês seu pedido para realizar a exibição do filme Octobre à Paris, de Jacques Panijel sobre o massacre de manifestantes argelinos em Paris em outubro de 1961.

Em 1981 a cooperativa de Vautier encerra suas atividades por falta de financiamento, mas ele continua seu trabalho político, filmando contra testes nucleares no pacífico, questões de imigração e a Resistência. E também é autor de vários livros, entre eles uma biografia intitulada Caméra citoyenne (Câmera cidadã).

 

Agradecimentos especiais para Moïra Chappedelaine-Vautier, cineasta, produtora e filha de Vautier, que nos propiciou o acesso aos filmes.

Mostra organizada pelo Cinecipó e pelo Grupo de Pesquisa Tecnopoéticas do CEFET-MG. Parceria com Sesc MG. Apoio Prodam / Governo do Estado de Minas Gerais e SindCEFET-MG. Patrocínio da Fapemig e do Programa Exibe Minas, do Governo do Estado de Minas Gerais.