





Para os Guardados
Redes de afeto na partilha do sensível
Por Arthur Quadra
O cinema que recusa a resignação encontra sua morada ideal na abertura do 14º Cinecipó - Festival do Filme Insurgente. Para inaugurar esta edição, a tela do festival acolhe Para os Guardados, longa-metragem dirigido por Desali e Rafael Rocha. Produzido de forma totalmente independente no bairro Nacional, na periferia de Contagem (MG), o longa-metragem reforça o compromisso histórico do festival com um cinema engajado, plural e capaz de tensionar as estruturas hegemônicas de poder e que atua como uma vitrine de contra-narrativas fundamentais para a formação de nossa identidade coletiva.
Vencedor do prestigiado prêmio de Melhor Longa-Metragem na Mostra Aurora da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o filme chega consagrado como um dos marcos mais pungentes e originais do cinema mineiro contemporâneo. Os diretores, formados e forjados nas intersecções entre as artes visuais e a vivência comunitária, trazem uma assinatura cinematográfica ligada à Aliança Periférica Nacional (A.P.N.), utilizando a câmera como uma extensão de suas próprias realidades e lutas históricas.
A narrativa acompanha o cotidiano de Fael, um jovem que assume a missão de preparar e transportar os kits "jumbo" (pacotes com mantimentos e itens de necessidade básica) destinados a amigos e conhecidos que se encontram privados de liberdade. O trajeto de Fael, contudo, afasta-se deliberadamente dos clichês do cinema de violência urbana ou do espetáculo do sofrimento. A câmera escolhe caminhar ao lado de quem fica, registrando os passos daqueles que tecem as redes invisíveis de sobrevivência.
Ao longo de 64 minutos, o filme entrelaça o percurso físico de Fael com uma camada sonora profunda, composta por cartas ditadas e áudios de aplicativos de mensagens reais enviados aos detentos. Essas vozes que ecoam na tela dispensam a necessidade de expor rostos ou espetacularizar corpos encarcerados. O que testemunhamos é uma escuta radical e humanista, onde o cárcere deixa de ser tratado como uma exceção geográfica ou social e passa a ser compreendido como a continuidade dolorosa de uma política estatal de exclusão e abandono.
O grande triunfo de Para os Guardados é contrapor o peso do aprisionamento em massa com a leveza e a urgência do afeto. O filme se constrói no encontro de gerações da quebrada que se reúnem para rimar, debater e criar estratégias contra o apagamento social. Manifestações da cultura urbana, como a oralidade crua e a poesia urbana do slam, servem tanto de trilha sonora quanto de armadura existencial.
A linguagem híbrida adotada pela dupla de diretores, que tateiam as fronteiras entre o documentário direto e a experimentação ficcional, confere à obra uma organicidade rara (embora marcante no cinema mineiro). Na contramão do polimento técnico pasteurizado das grandes produções comerciais está a verdade do gesto e a textura do território.
Ao apostar nessa crueza e na verdade do território, o filme opera o que Jacques Rancière define como uma autêntica política da arte: uma rachadura na ordem daquilo que nos é dado ver e ouvir. Em vez da denúncia panfletária tradicional, a obra subverte a própria partilha do sensível ao conferir estatuto estético a corpos e vozes sistematicamente silenciados. Centralizar o protagonismo nas estratégias de cuidado de Fael é, fundamentalmente, redistribuir os papéis sociais na tela, devolvendo o direito à palavra e à presença àqueles que o Estado tenta reduzir a meros dados estatísticos de uma engrenagem prisional.
Essa reconfiguração do olhar promove um dissenso profundo diante do determinismo sociológico que costuma confinar a juventude negra ao binômio da carência ou do perigo. Ao abrir o festival com esta obra, o Cinecipó provoca o público a pensar sobre quem pode e deve fazer cinema e transforma o ato de assistir em uma tomada de consciência, provando que a emancipação da imagem caminha lado a lado com a insurgência política.




