





Dentro do Meu Peito Mora um Cão / Fronteriza / Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro / Comunhão
Trincheiras em busca de emancipação
Por Arthur Quadra
Nesta sessão, reunimos trabalhos que têm sua capacidade visceral de operar como um sismógrafo das urgências sociais e íntimas, condensando em poucos minutos fraturas históricas profundas e lampejos audaciosos de futuro: os curtas Dentro do Meu Peito Mora um Cão, de Gabriel Afonso; Fronteriza, de Nay Mendl e Rosa Caldeira; Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro, de Lia Letícia e Pedro Severien; e Comunhão, de Pétala Lopes. São filmes que, embora partam de estéticas formais muito distintas, geografias diversas e gêneros plurais, transitando livremente do drama psicológico à ficção científica distópica, do road movie de investigação identitária ao registro afetivo da maturidade, convergem de maneira inteiramente orgânica na investigação dos conceitos de território e afetividade. Sejam esses territórios as fronteiras geopolíticas nacionais, as paisagens dilaceradas e fraturadas pela atividade da mineração, as redes solidárias de afeto na maturidade de mulheres dissidentes, ou os quilombos rítmicos que desafiam o apagamento histórico e o esquecimento institucionalizado.
Em Dentro do Meu Peito Mora um Cão, o artista multidisciplinar Gabriel Afonso nos introduz de forma crua à asfixia urbana, existencial e psicológica do protagonista Josué. O território deixa de ser um mero pano de fundo geográfico para se consolidar como um agente abertamente traumático e opressor. A cidade de Nova Lima, historicamente marcada e ferida pela atividade predatória da mineração, projeta as suas montanhas de ferro, os seus medos e as suas profundas frustrações coletivas na própria pele e na insônia crônica do jovem artista. A angústia individual de Josué espelha com assombrosa precisão os impasses existenciais de toda uma geração de jovens negros e periféricos que herdam um mundo economicamente exaurido, onde o espaço asfixiante e a subjetividade ferida se fundem em um sufocante sentimento de clausura. Gabriel Afonso constrói um ensaio poético denso sobre o peso político de carregar, cravada no peito, a ferida aberta de um território explorado.
Essa fricção dolorosa com o espaço ganha contornos de uma necessária e poética travessia identitária em Fronteriza. A jornada corajosa de Lucca rumo à Tríplice Fronteira desestabiliza por completo a suposta rigidez das linhas artificiais que separam nações, gêneros, corpos e tempos. Ao cruzar fisicamente os limites territoriais entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina munido apenas de uma velha câmera handycam e de um desejo latente de encontrar o pai que nunca conheceu, o protagonista, um jovem homem trans, transforma a barreira geográfica em um espelho nítido e potente de sua própria transição pessoal. O filme de Nay Mendl e Rosa Caldeira opera de maneira magistral na dobra sensível entre o registro documental real e a fábula ficcional, sugerindo com agudeza que as fronteiras mais profundas, violentas e complexas não estão desenhadas nos mapas cartográficos oficiais, mas sim nas engrenagens e construções sociais normativas que tentam limitar a livre circulação dos corpos e a expressão legítima dos afetos dissidentes.
Se o espaço geográfico ora isola, ora desafia diretamente esses personagens, o tempo e a fabulação tornam-se a matéria-prima urgente da resistência afrofuturista em Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro. Nesta audaciosa ficção científica musicalizada, Lia Letícia e Pedro Severien projetam com inteligência um amanhã distópico e autoritário onde o silenciamento absoluto da cultura negra e a proibição do ritmo são erguidos como políticas severas de Estado. Frente à ameaça do esquecimento, a viagem temporal arriscada de Aleph e Dandara para resgatar as memórias rítmicas e a herança do grupo afro cultural Lamento Negro, de Peixinhos (Olinda), reposiciona a memória coletiva como uma tecnologia avançada de libertação e sobrevivência. O curta-metragem celebra o ritmo, o batuque e a ancestralidade como armas revolucionárias e vivas, arquivos sônicos enviados do ontem para sabotar as opressões do presente e salvar o próprio futuro. O lamento transmuta-se em insurreição estética e o tambor firma-se como vetor de cura histórica.
Finalmente, gesto semelhante de cura por meio do coletivo e do afeto compartilhado encontra a sua tradução mais luminosa, terna e necessária no documentário Comunhão. A diretora Pétala Lopes afasta-se deliberadamente das pressões caóticas das grandes metrópoles e das projeções distópicas para registrar a utopia concreta, tátil e real vivida por um grupo de amigas lésbicas com mais de 50 anos de idade. No isolamento seguro, cúmplice e ensolarado de um sítio, o filme celebra com profunda sensibilidade o direito inalienável ao ócio, ao riso compartilhado, às memórias afetivas, ao desejo e ao cuidado mútuo durante a maturidade, abordando vivências e corpos que historicamente encontram pouquíssimo espaço de representação digna na esfera pública e nas telas de cinema.
A "comunhão" que dá título ao último filme atravessa a sessão e evoca, portanto, a criação de um território autônomo e temporário de acolhimento. Vistos em conjunto, estes quatro curta-metragens cavam ativamente, no espaço e no tempo, trincheiras inabaláveis de fabulação, emancipação, prazer e beleza. São obras urgentes que funcionam como um manifesto visual, lembrando-nos de que os corpos dissidentes, ao assumirem as câmeras e filmarem as suas próprias travessias, fraturam irremediavelmente as bordas engessadas da realidade e plantam, no presente, as sementes férteis de novos mundos possíveis.




